CAPÍTULO 1

Toda a (vida) obra é uma ficção 



Para todas as Rosas, Marias, Pedros, Josés e Franciscas, que tiveram a coragem de se aventurar, desvendar e construir esse mundo.



Dona Rosa chegou logo cedo na rodoviária. Dê certo, viajou noite inteira. É bom viajar a noite, dizem, "é só dormir que num instante chega". Mas não foi nisso que pensou Dona Rosa. O que pesou em sua decisão foi o preço da passagem. Economizaria ali uns cinco ou seis vinténs, mas antes isso que nada. Já não havia muito dinheiro, pois não havia trabalho. Se esses cinco ou seis reais não fossem lhe fazer falta, quem sabe nem viria. Não era um passeio, claro que aproveitaria a vida nova, mas vinha mesmo a procura de trabalho. Não era mesmo por isso que muitos, quando não todos, viajavam.

Trazia coisa pouca. Bastou uma mala. Trazia ali suas roupas de baixo, um vestido ou outro, e uma roupa bonita pra se aparecesse alguma festa pra ir. Afora isso, trazia também um isopor com a comida da terra que a irmã tanto sentia falta. Tinha lá seus 50 anos, mas era vaidosa. Logo tratou de ir ao banheiro e colocar um vestido bem bonito, que comprou a custo para a ocasião. Não quis usá-lo durante a viagem para não chegar toda amarrotada. Imagina só então se pingasse uma gota de café enquanto o ônibus chacoalhava. Só de pensar nisso já se arrepiava toda.

Vestido trocado, pôs-se a esperar. Sua irmã disse que Gustavo vinha buscar. Imagina só, a última vez que o viu ele não passava de um fedelho. Será que o reconheceria? Vai saber. Sua irmã também dizia que as coisas aqui não estavam fáceis, mas também não poderia estar pior que lá. Muita gente veio pra cá para enricar e se não voltou é certo que enricou. Dona Rosa não queria enricar. Queria mesmo era ganhar o suficiente para que nada lhe faltasse. E claro, queria ficar perto da única irmã que sobrou. Mas queria mesmo é que Gustavo chegasse, eita menino pra demorar. É melhor tomar um café pra ver se acalma.

Mas quem diria que Dona Rosa chegaria aqui. Ela mesma não diria. Dá pra acreditar? Depois de tantos anos? Mas ela chegou, agora só falta Gustavo chegar, e olha que ele nem vem de tão longe quanto ela. É perigoso esse negócio de ficar esperando, "a gente pensa em tanta coisa", diz Dona Rosa. Quanta gente passa ali, passa e não vê. Não vê que Dona Rosa, lá com seus cinquenta anos, ainda tá sonhando em descobrir essa cidade nova. "Recomeçar, essa é a palavra". E Dona Rosa vai sonhando, sonha com a festa que pode acontecer daqui uns dias, ela quer um dia ou dois para descansar, mas depois pode chamar. Mal pode esperar pra ver a irmã depois de tanto tempo. Recordar as histórias de meninas peraltas. As vezes o chicote estralava, mas valia a pena. E enquanto sonha Dona Rosa pensa: "onde se meteu esse bendito menino que não aparece?".

Comentários

  1. Que deliciosa forma de escrever! Coloca a gente dentro da história de dona Rosa e deixa um gostinho de "quero mais".

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